A Civilização

Chamam-lhe "progresso"
Na prática, é uma feira onde ninguém sabe qual é a barraca certa.
O médico corre para o hospital como se fosse operar um presidente.
Chega lá e passa a manhã a dizer "isto é virose" a pessoas que já leram no Google que não é.
O pedreiro apanha trânsito para construir prédios onde nunca vai morar.
O cozinheiro frita batatas para clientes que fazem uma sessão fotográfica antes de provar.
O motorista de autocarro leva meia cidade às costas.
E ainda leva com as histórias do tio Manel no banco da frente — convencido de que a revolução de 74 ainda está a dar no rádio.
No fim do dia, todos acabam no mesmo sítio.
Supermercado, Centro comercial, Bomba de gasolina,
e mais caro do que ontem.
Mas com música ambiente para suavizar o assalto.
Quando parece que acabou, começa a ronda das redes sociais.
A montra da felicidade.
Até o senhor da peixaria escreve "vibe do dia" com três emojis de peixe.
Sobreviver a isto exige paciência.
Não a fofinha dos livros de autoajuda.
A outra.
A de esperar enquanto alguém lê o menu como se fosse um contrato… e no fim pede "o de sempre".
O truque? Participar o mínimo possível.
Dizer "pois" no momento certo.
Fingir que se está ocupado a olhar para um azulejo.
E nunca discutir com quem acha que uma frase motivacional resolve a vida.
No fim, continuamos, não porque a civilização seja boa, mas porque viver no mato não tem café nem pastelarias…
nem aquele conforto de que a desgraça dos outros nos parece tão engraçada.
É assim, e ninguém larga o café da manhã — porque é ele que mantém este grande progresso.