A Cura na Areia

Na década de noventa num verão, desses que ficam marcados não pelo ano, mas pelo que nos acontece, eu frequentava a praia com a leveza de quem vai à beira-mar mais para pensar do que para nadar.
Ali, reparei num jovem que vinha todos os dias sentar-se junto à água, livro nas mãos, ar concentrado. Era universitário, via-se pelo olhar atento e pela postura de quem ainda está a aprender o mundo.
Num desses dias, depois de um mergulho, eu disse-lhe que a água estava maravilhosa.
Ele sorriu com educação e respondeu que não podia entrar — sofria de sinusite crónica, e bastava molhar a cabeça para ficar de com dores. Dores essas que lhe roubavam o estudo, o trabalho e a disposição.
Olhei para ele com a naturalidade de quem já viu a cura sair da terra e disse:
"Posso ajudar-te, se quiseres."
Depois de um longa conversa, ficou surpreendido e intrigado e acabou por aceitar. Para mim a preparação das ervas não era difícil tinha estudado em Barcelona com mestres qualificados, conhecia algumas ervanárias em Barcelona e estava na hora de aplicar meus conhecimentos, e para um amigo — um prazer simples, feito com precisão e carinho.
O correio chegou rápido com o respectivo pedido via telefone.
Durante quinze dias cuidei daquela mistura, como se cuidasse de uma promessa.
Entreguei-lhe a garrafinha discretamente, num outro dia de praia, sem cerimónias. Ele levou-a sem alarido, agradeceu com um sorriso curto e voltou ao seu livro.
Um mês depois, encontrámo-nos de novo. Perguntei-lhe pelo efeito, com natural preocupação.
E ele, como se fosse a coisa mais banal do mundo, respondeu com um simples:
"Foi bom."
Estava curado. Sem dores. Sem crise. A sinusite crónica tinha desaparecido como se nunca lá tivesse estado.
Para ele, o meu gesto era um hobby. Para mim, era uma das mais bonitas confirmações de que a natureza, quando respeitada, devolve mais do que pedimos.
E nesse dia aprendi mais uma coisa:
"Nem tudo que reluz é ouro, mas o curioso é que nem todo o ouro reluz."