Gerês: Onde a Generosidade Bate na Pedra

29-08-2025


Há dois meses aproximadamente fui ao Gerês de passeio, e encontrei num restaurante um sujeito, com visíveis problemas de saúde.

Dei-lhe bom dia, e conversei um pouco com ele, e, lá veio à baila que tinha incapacidade declarada pela Segurança Social portuguesa.

Que ganhava pouco, que a vida era dura… confesso que até me deu pena.

Perguntei se tinha sido emigrante. "Sim", respondeu ele.

E eu, sempre pronto a ajudar, lancei a pergunta óbvia: "Então tens pensão do estrangeiro?"

Ele olhou para mim com aquela expressão de "és maluco?" e disse: "Não!

Só terei direito à reforma quando chegar à idade… e tenho só 50 anos (aproxi.)."

Eu, todo generoso, disse: "Sabes que podes pedir a incapacidade em qualquer país com convénio bilateral com Portugal, certo?"

Ele ficou de boca aberta.
Então expliquei-lhe que lhe podia facilitar tudo:
bastava uma autorização para a irmã, ela recolhia os pontos da Segurança Social lá fora e enviava para ele, e ele poderia iniciar o processo sem sair do país.

Se queria eu fazia-lhe de imediato uma autorização para a irmã, ao que respondeu que sim.

Em 15 minutos, no meu smartphone, estava a autorização pronta.

Como ele não tinha transporte ainda fiz uns bons kms no meu carro para imprimir o documento, no Hotel S. Bento.

Dei-lhe todas as instruções:
assinatura, envio, pontos… copia de BI ainda lhe espliquei como dar uns traços no BI por Segurança, etc.. tudo completo.

Ontem, voltei ao Gerês e pensei: "Vou dar uma olhadela, ver se o homem já resolveu tudo."

Fui ao restaurante onde ele costuma tomar café e perguntei:

"Então, já conseguiste avançar com a incapacidade?"

Ele olhou para mim e respondeu, com ar sério:

"Fui à Câmara Municipal e disseram-me para enviar diretamente à Segurança Social estrangeira."

A única coisa que consegui pensar foi: "Ah, claro… porque aquela autorização que fiz para a tua irmã… era só para decoração, certo?"

Moral da história: às vezes, ser generoso é como dar comida a um gato que só sabe bufar

— gastas tempo, energia, explicas tudo direitinho… e ainda sais mal visto.

E no fim, ficas com aquela sensação agridoce: ajudaste, mas ninguém agradeceu, ninguém percebeu, e o mundo continua a girar sem notar que há pessoas que perdem seu tempo para ajudar.

A generosidade, meus amigos, às vezes é como um passeio no Gerês num dia de chuva:

Aprecias a paisagem, molhas-te todo… e ainda levas com a lama nos sapatos.

 

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